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Poucas cidades no mundo carregam, ao mesmo tempo, o peso simbólico da floresta, a complexidade da geopolítica ambiental e a força concreta da indústria como Manaus. Em plena Amazônia Ocidental, a capital deixou de ser apenas fronteira e passou a ser vértice estratégico do Brasil diante do mundo. Com mais de 2,3 milhões de habitantes em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e com um Polo Industrial que ultrapassou os 204 bilhões de reais em faturamento em 2024, além de 131 mil empregos diretos em 2025, conforme dados oficiais da Suframa, Manaus hoje projeta soberania produtiva, inovação tecnológica e responsabilidade ambiental em escala global. O que antes era isolamento tornou-se centralidade, e o que era desafio transformou-se em afirmação histórica.

Esse presente de pujança não é obra do acaso, tampouco resultado de ciclos passageiros. Ele é herdeiro direto de uma engenharia histórica construída por homens que ousaram enxergar na Amazônia um espaço de transformação produtiva e não apenas de extração primária. O recente lançamento da biografia de Sócrates Bomfim resgata um dos arquitetos desse pensamento. Advogado, economista, gestor público e empresário, foi defensor da industrialização baseada no aproveitamento racional das matérias primas regionais, fundou a Mineração Bomfim, idealizou a Companhia Siderúrgica da Amazônia (Siderama) deixou vasta obra intelectual sobre desenvolvimento. Sua visão antecipou, com décadas de antecedência, os pilares que hoje sustentam o debate sobre sustentabilidade produtiva e integração nacional da região.

O pensamento desenvolvimentista que emergiu desse período não foi apenas uma corrente econômica, mas um projeto intelectual de Brasil a partir da Amazônia. Ele rompeu com a lógica colonial de ciclos extrativistas e introduziu a noção de permanência produtiva, agregação de valor, infraestrutura, crédito, indústria e capital humano como vetores de soberania. Essa concepção estruturou decisões públicas e privadas, orientou a formação de quadros técnicos, justificou a Zona Franca como política de Estado e consolidou a ideia de que a Amazônia só se protegeria tornando-se também economicamente forte, integrada e estrategicamente relevante para o país.

Outros pilares desse projeto civilizatório também se impuseram pela ação concreta. A formulação teórica do desenvolvimento regional encontrou em Samuel Benchimol, economista, professor e empresário nascido em Manaus, a principal base intelectual para compreender a Amazônia como sistema econômico integrado, ao mesmo tempo em que sua atuação na fundação do Grupo Bemol e da Fogás organizou cadeias essenciais de abastecimento. A industrialização energética ganhou contornos definitivos com Isaac Benayon Sabbá, empresário de origem judaica que fundou o grupo IB Sabbá e a Petróleo Sabbá, contribuindo decisivamente para o abastecimento de energia, infraestrutura e crédito no Amazonas, legado que dialoga diretamente com a diversificação produtiva operada por Moysés Benarrós Israel nas atividades industriais e no beneficiamento de matérias primas regionais, integrando a geração da resistência econômica.

No mesmo eixo de construção industrial, o surgimento e a consolidação do Grupo Simões representam um dos capítulos mais expressivos da modernização produtiva da capital. Antônio de Andrade Simões, que iniciou sua trajetória no pequeno comércio, fundou o grupo com coragem empreendedora e visão de longo prazo. Ao seu lado, Petrônio Augusto Pinheiro, sócio e articulador institucional, foi fundador da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam) e responsável por fortalecer o elo entre indústria, comércio e desenvolvimento regional. Integrando esse mesmo núcleo estruturante, Osmar Alves Pacífico participou diretamente da formação e expansão do grupo nos ramos de bebidas, gás, distribuição e logística, contribuindo para a diversificação econômica do Norte.

A modernização da economia amazonense também se apoiou na comunicação, no comércio exterior e na cultura administrativa. A integração definitiva da região ao sistema nacional de informação ocorreu com Phelippe Daou, empresário, jornalista e fundador da Rede Amazônica, cuja atuação projetou os interesses do Norte no debate nacional. Nesse mesmo campo estratégico da comunicação, Umberto Calderaro consolidou-se como um dos maiores empresários da mídia no Amazonas, como fundador da Rede Calderaro de Comunicação e do grupo que edita o jornal A Crítica, estruturando um dos mais influentes sistemas de imprensa da região e ampliando o alcance da informação amazônica no cenário nacional. O comércio e a exportação foram impulsionados por Isaac Benzecry, empresário que ajudou a integrar a economia regional ao mercado externo por meio da castanha, da juta e de outros produtos amazônicos. A cultura de liderança empresarial encontrou em Cosme Ferreira, então dirigente da Associação Comercial do Amazonas, um verdadeiro formador de gerações.

Na sustentação dessa travessia histórica também se ergue a geração que manteve a economia viva nos períodos mais instáveis, frequentemente distante dos holofotes, mas decisiva nos bastidores. Mário Guerreiro integra esse grupo de protagonistas da resistência que ajudaram a reorganizar a base produtiva no pós-borracha. Ao seu lado, Adalberto Valle, Geraldo Pinheiro, Leandro Tocantins, Clóvis Ferro Costa, Vasco Vasques e José Ribamar Bentes Siqueira garantiram a continuidade das atividades econômicas, do pensamento regional e da organização produtiva quando os ciclos entraram em colapso.

Reconhecer esse conjunto de trajetórias não é um gesto de cortesia histórica, é um ato de responsabilidade institucional diante do futuro. O Produto Interno Bruto (PIB) de Manaus, que já ultrapassa 103 bilhões de reais nos levantamentos consolidados, não nasceu de improvisações nem de políticas transitórias. Ele foi edificado sobre risco, visão estratégica, investimento produtivo e compromisso com a permanência da Amazônia no centro do projeto nacional. A biografia de Sócrates Bomfim simboliza esse reencontro do presente com suas raízes mais profundas. E é impossível não perceber, no jogo curioso dos nomes, a coincidência que aproxima o desenvolvimentista amazônico de seu homônimo, o filósofo Sócrates, cuja máxima “uma vida sem reflexão não merece ser vivida” atravessou séculos. Não como inspiração direta, mas como reflexo simbólico, essa frase hoje se projeta sobre todos esses empresários que ousaram pensar, arriscar e construir quando ainda não havia garantias.

Que as novas e futuras gerações saibam reconhecer nesses homens não apenas empresários, mas desbravadores que abriram caminhos onde antes havia incerteza, e que seus legados sirvam de referência ética, intelectual e produtiva para o que ainda construiremos. A Amazônia não é periferia, não é acessório, não é rodapé da história brasileira. Ela é vértice de civilização, eixo de soberania e território de decisão. Honrar seus pioneiros é garantir que o futuro continue sendo construído com a mesma coragem desenvolvimentista que um dia transformou a floresta em potência.

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